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publicaçãoEdição 82 da Revista USP aborda os movimentos messiânicos no Brasil Apocalípticos, impressionantes e assustadores, os movimentos milenaristas e messiânicos povoam o imaginário popular e nem sempre estão presentes da forma adequada nos livros de história. A diferença entre milenarismo e messianismo é difícil de ser precisada, inclusive para especialistas. Os dois movimentos se confundem e são caracterizados por exacerbação política e religiosa, que foge do controle e acaba provocando morte de líderes e participantes. Antônio Conselheiro morto / Flávio de BarrosAlguns movimentos brasileiros muito conhecidos, como o de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro, e a adoração a Padre Cícero, fazem parte desse tipo de exacerbação. E há outros desconhecidos, mas não menos importantes. Por isso este foi o tema escolhido para a edição mais recente da Revista USP, de número 82. Publicada no início de março, ela traz um dossiê sobre o tema. O número 83 da revista, sobre Joaquim Nabuco e a República, já está em produção e em vias de ser concluído.Sugerido pelos professores João Baptista Borges Pereira e Renato da Silva Queiroz, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o tema se mostra bastante atual e digno de publicação, principalmente nos dias atuais, quando a internet potencializa comportamentos e credos exagerados. Franciso Costa, editor da revista, explica que casos pouco ensinados nas escolas, como Catulé ("O demônio e o messias: notas sobre o surto sociorreligioso do Catulé"), Pau de Colher ("Memórias do fim do mundo: o movimento de Pau de Colher") e os mucker ("Os mucker: Uma releitura psicológica") são temas de artigos da publicação. Há, também, um texto agregador, que pontua as diferenças entre os dois tipos de movimento. "'Sobre os messianismos e milenarismos brasileiros' é um texto de síntese, muito importante porque normalmente não se explica muito bem onde temina o messianismo e começa o milenarismo", afirma Francisco. Nas palavras do editor, messianismo se liga a uma figura religiosa central, como Antônio Conselheiro; já o milenarismo "se confunde com o apocalíptico, uma vez que envolve não apenas forças militares que confrontam os participantes, mas ainda o morticínio dentro dos mesmos, que buscam o 'paraíso' em vida" -, em palavras mais duras, os seguidores cometem suicídio como forma de sacrifício.São dez artigos sobre os mais variados movimentos, de dez autores diferentes, organizados pelos professores que sugeriram o tema. "O assunto é bem interessante. Já havíamos publicado um dossiê sobre religiosidade no Brasil, que fez tanto sucesso que a edição se esgotou em dois meses", recorda Costa. Além do dossiê, a Revista USP traz textos sobre Hermeto Pascoal, arte africana, Francis Bacon e Joaquim Cardozo.Saiba mais sobre os movimentos messiânicos e milenaristasCatuléOnde: comunidade do Catulé, Malacacheta, Minas GeraisQuando: 1955O que: Um grupo de 10 famílias de lavradores pobres e recém convertidas à Igreja Adventista da Promessa foi tomado de forte exaltação místico-religiosa. Em um surto coletivo na Páscoa, eles mataram quatro crianças, que acreditavam estar possuídas pelo demônio, além de cães e gatos. Foram acusados de possessão demoníaca e de espancar crianças e adultos em nome da fé. O episódio é conhecido como "A aparição do demônio em Catulé". Os líderes foram os camponeses Onofre e Joaquim, que pregavam à comunidade que a vinda de Cristo estava próxima, incitando que eles se preparassem levando uma vida "justa". O único alfabetizado ali era Onofre e cabia a ele ler e explicar passagens da Bíblia. A vida dos crentes se tornou uma imensa obrigação, sob rígidas regras: reuniões e orações diárias, contribuições em dinheiro e estudo da doutrina - fora as regras do adventismo, que proíbem a ingestão de carne e gordura de porco, bebidas alcoólicas, cigarros e festas ou bailes profanos. Parte do grupo foi morto por policiais, inclusive os líderes.Pau de ColherOnde: sertão da BahiaQuando: 1938O que: Pau de Colher era um pequeno povoado em Casa Nova, Bahia. Ali, famílias oligárquicas disputavam votos e a relação de poder com o governo central, num confronto mortal que assolava, também, a população mais pobre. Foi então que surgiu um pregador, o beato Severino Tavares, ou Conselheiro Severino. Ele dizia que o "fim do mundo" estava próximo, e que os camponeses iriam ver a terra tremer e gemer. Essa ideia apocalíptica era a forma de ele retomar a fortalecer os costumes religiosos. O líder foi morto em 1937 e, logo depois de seu falecimento, surgiu o Conselheiro Quinzeiro. Os camponeses passaram a viajar atrás de Quinzeiro e acampar à sua volta; o quartel-general do grupo se estabeleceu na casa de Senhorinho, em tal povoado. Foram mortos a cacetadas os que não respeitavam as regras. Nessa tensão, muita gente queria deixar Pau de Colher ou radicalizava em sua missão apocalíptica-salvacionista. As autoridades estavam decididas a acabar com o reduto rebelde com medo que acontecesse um novo Canudos. Quinzeiro começava a falar em salvação através da morte. Foi quando as tropas militares começaram a atacar, e tiveram o troco dos "caceteiros", porque os camponeses portavam cacetes (bastão ou pedaço de madeira). O ataque deixou 400 mortos só no primeiro dia. Reza a lenda que Quinzeiro conseguiu escapar vestido de mulher.MuckerOnde: Sapiranga, Rio Grande do SulQuando: 1872-74 O filme A Paixão de Jacobina, do diretor fábio barreto, retrata a história dos Mucker. O que: A situação nasceu com um grupo de imigrantes alemães protestantes liderado por Jacobina Mentz Maurer e seu marido, João Maurer. Jacobina, desde criança, entrava em transe, tinha delírios, e passou a diagnosticar doenças em terceiros. Ela e João começaram, então, a cuidar dos doentes. A população local vivia sob duras condições, à luz das promessas do Império de Dom Pedro II que não foram concretizadas. Jacobina liderou um movimento de lutas, ataques e mortes a quem considerava inimigo de seu Deus. A expressão mucker, em alemão, significa falso santo em português, e era assim que eram conhecidos seus seguidores pelas pessoas de fora do movimento. Os mucker acreditavam que só eliminando seus opositores seria possível instalar a nova ordem. Eles obedeciam Jacobina, enviada por Deus, em seus delírios religiosos. E por isso entraram em conflito com o resto da comunidade, e, consequentemente, com a guarda imperial. Jacobina, assim como vários de seus seguidores, foi executada e enterrada em vala comum.ServiçoA Revista USP pode ser comprada na Edusp, na Livraria Cultura e através do site www.usp.br/revistausp. O exemplar custa R$ 20